* Capítulo 18 : CAMPONESA do livro " Antônio Palavras de fogo, vida de luz" de Madeline Pecora Nugent
"A camponesa estava amassando pão há talvez dois minutos, qdo ouviu baterem levemente à porta de sua cabana.(...)
Muito provalvelmente seus visitantes não eram hereges, mas peregrinos a caminho de um santuário em Le Puy, Mont Saint Michel, Vezelay ou de mtos outros lugares na França. Se fossem verdadeiros seguidores de Cristo, ela lhes ofereceria um pedaço de pão, se estivessem dispostos a esperar até q crescesse e assasse. Cristo não disse q os q acolhiam estrangeiros acolhiam a ele? A mulher imaginava que, algum dia, abriria a porta e talvez o próprio Salvador estivesse parado aí.
Naquele dia não havia Salvador, mas não faltava muito, pensou ela sorrindo para si mesma.Eram dois pobres frades, molhados até os ossos.
'Senhora, viemos de longe', disse o mais baixo, q tinha aproximadamente a altura dela. (...)
A mulher voltou a amassar o pão. Os frades ficaram sentados em silêncio diante do fogo, com suas túnicas espraiadas diante deles. A água que pingava de suas roupas formava poças barrentas no chão.
(...)
A mulher colocou os dois pães sobre uma tábua e cobriu-os com um pedaço de linho. Pôs os pães no chão, perto da lareira, e olhou de lado para os frades. Finas e brilhantes linhas de água escorriam dos olhos deles. Ela desviou o olhar.
Alguma coisa no frade mais baixo a fez parar. Parecia que o tinha visto em algum lugar, que tinha ouvido aquela voz.
(...) A mulher ficou boquiaberta e então se recompôs. Aquele era o Padre Antônio. Ela o tinha ouvido pregar quatro vezes, mas sempre tinha ficado bem atrás na multidão. A visão dela tinha piorado tanto com a idade que nunca o havia enxergado com clareza, mas a voz, sim, a voz era a dele.
(...) Ela tinha apenas xícaras e pratos de madeira simples e arranhados para servir a refeição. Se ao menos tivesse algo fino para proporcionar um pouco de alegria àqueles homens! Sua vizinha tinha um cálice de vinho. O padre Antônio tinha de beber de um cálice. Certamente estava acostumado a essas coisas refinadas. Ele não a tinha chamado de 'senhora' e sido bem-educado como um nobre?
A mulher ergueu-se de junto da lareira e apanhou sua capa de chuva com capuz.'Tenho somente xícaras toscas para servir a bebida, padre. Minha vizinha tem um fino cálice de vidro.Vou pedir emprestado a ela para que possa usá-lo, padre.'
Antônio parecia espantado e consternado.'Minha senhora, não se incomode.Estou vivendo em uma caverna em Brive e bebendo água corrente com minhas mãos. Não necessito de um cálice chique.'
'Uma caverna? Padre, não brinque comigo. Não, o senhor terá seu cálice. A cabana dela fica logo atrás da colina.'
Antônio levantou de um pulo.'O tempo está mto ruim. Não vá. Não é necessário.'
'Minha capa está velha, mas não está furada',disse a mulher com orgulho.
'Então deixe q eu vista e vá em seu lugar', ofereceu-se Antônio.
'Claro que não, padre. Fique aqui, e logo estarei de volta.' (...)
A mulher colocou o pão, juntamente com uma faca, sobre a mesa, então colocou a capa de chuva sobre a cabeça.Pegou um jarro e saiu apressadamente para tirar vinho da única pipa que havia em sua adega. Quando ela voltou com um jarro cheio, o frade mais jovem encontrou-se com ela junto à porta. O rosto aflito dele revelou a ela que havia algo desesperadaemnte errado.
Ele estendeu as duas mãos para ela.Em uma estava o cálice, na outra a base dele.A mulher quase soltou um grito.
'Sinto mto', disse o jovem com uma voz aguda e trêmula.'Estava apenas olhando o cálice, e ele escorregou.'
'O cálice de minha vizinha', gemeu a mulher. 'A coisa mais preciosa que ela tem. Jamais poderei substituí-lo. Santa Mãe de Deus, tenha misericórdia! O que direi a ela? Santa Mãe de Deus, tenha misericórdia!'
O jovem parecia desamparado e estava prestes a chorar. Por que ela tinha falado tão depressa? Deveria ter calado a boca.
'Não se preocupe com isso', disse ela quase rápido demais.'Somos amigas.Ela me perdoará.Eu pedi o cálice para o padre Antônio.Ela me perdoará.'
Um pouco trôpega , a mulher caminhou até a mesa e colocou o jarro ali. Antônio estava sentado no banco, com os cotovelos apoiados sobre a mesa, as mãos segurando o rosto. Sua cabeça tonsurada brilhava à luz do fogo.
'Padre, está se sentindo mal?' perguntou ela.
Enquanto ele balançou a cabeça em negativa, ela subitamente se lembrou de algo.
'Amada Mãe de Deus, esqueci de fechar a torneirinha!'
Ela saiu correndo em direção à adega.O vinho estava correndo a toda para o chão, tingindo a terra de preto. A mulher fechou a torneirinha e apoiou-se contra a pipa, gemendo. Começou a bater de leve na pipa de vinho de baixo para cima.Ainda não tinha chegado ao meio dela quando ouviu o fraco eco que indicava espaço vazio. Antes estava quase cheio, mas nesse momento estava praticamente vazio.A terra tinha bebido quase todo o seu suprimento de vinho para o inverno.
Arrastou-se de volta para a casa. Teria de parecer animada aos seus hóspedes.Estavam sentindo tristeza suficiente, e ela era a única ali para consolá-los.Além disso, um dos dois era o famoso pregador. Oh, ela quase desejava que ele tivesse ido à cabana da vizinha em vez de ter procurado a sua. Primeiro, o cálice para vinho.Depois, o vinho. Era assim q Deus recompensava quem servia a seus servos?
A mulher entrou e pendurou a capa. Procurou sorrir para não preocupar os frades.Pediria ao padre AntÕnio que desse uma benção e então os serviria. Antes disso, ela foi ao armário de louça buscar sua segunda xícara de madeira.
Quando se virou para a mesa, Antônio sorriu levemente para ela.'Estou contente que tenha decidido se juntar a nós, senhora.Só que vou preferir usar aquela xícara de madeira que pegou para si mesma. Creio que a senhora, como nossa graciosa anfitriã, merece usar o fino cálice.'
Ele estendeu a mão para ela.Atônita, ela pegou o cálice da mão dele. Estava intacto.
Ele continuou a falar, com voz cansada e abafada:'Agora, para que possamos desfrutar nossa refeição juntos, posso lhe pedir que vá verificar seu barril de vinho de novo? Creio, senhora, que o encontrará cheio.Esperaremos até q volte para orarmos juntos.'
'Sim, padre', disse a mulher, surpresa.Sem nem mesmo se preocupar em vestir a capa de chuva, ela saiu correndo para a adega e bateu de leve na pipa. Primeiro no fundo, da parte superior. Cada vez escutou a mesma pancada surda que significava somente uma única coisa.Vinho."
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